Segundo seu projeto pedagógico, a Escola Caminho do Meio tem seu trabalho ancorado em seis princípios: Integralidade, Diversidade, Conhecimento, Sustentabilidade, Criatividade e Sabedoria. Conheça-os um pouco mais abaixo.

Sabedoria

A Escola Caminho do Meio baseia sua proposta pedagógica nas Cinco Sabedorias. Na cultura contemporânea, o conhecimento e a informação estão em voga, mas a sabedoria, tema preponderante para os antigos gregos, não tem um espaço de destaque. Na Escola Caminho do Meio, buscamos resgatar esses valores, essencialmente universais, conforme sistematizados na tradição budista e apreendidos a partir dos ensinamentos de Lama Padma Samten (2006), a saber: Sabedoria do Acolhimento, Sabedoria da Igualdade, Sabedoria Investigativa, Sabedoria da Causalidade e Sabedoria da Transcendência.

Esses valores não são apreendidos na Escola de forma discursiva, mas como exercício prático para os próprios educadores, que podem educar as crianças a partir de seu próprio exemplo. Essas sabedorias, conforme descritas abaixo, são inseparáveis, mas serão aqui apresentadas de forma breve e sequencial.

Iniciamos com o exercício da Sabedoria do Acolhimento, abrindo um olhar para o outro, exercitando acolhê-lo a partir de seu próprio mundo, e não a partir de nossos conceitos prévios. Buscamos, de forma aberta, entender o mundo do outro e como ele surge a partir de seu próprio contexto.

Dessa forma, com a Sabedoria da Igualdade, percebemos que “o outro sou eu em outro mundo”, e a partir daí surge a sensação de que beneficiar o outro nos traz alegria, a alegria do outro é a nossa também, e o benefício do outro e do grupo inclui a nossa própria felicidade.

Em seguida, na Sabedoria Investigativa, observamos mais a fundo as experiências. Buscamos desenvolver uma atitude interna de olhar mais de perto nossas próprias emoções, o outro, os fenômenos ao redor. É preciso desenvolver foco e ampliar a capacidade de concentração. Esta é também uma atitude base para o aprendizado e a curiosidade científica.

Uma vez mais atentos, podemos acessar a Sabedoria da Causalidade, percebendo que todas as ações têm reações e que os fenômenos estão todos interligados em relações de causa e efeito. Podemos assim adotar uma postura ética não apenas moralista, mas ancorada em uma sabedoria vivencial ao perceber a causalidade. Podemos reduzir nossas ações negativas e ampliar nossas ações positivas não por repressão, mas por lucidez.

Por fim, podemos acessar a Sabedoria da Transcendência, através da qual podemos perceber que cada um de nós, cada ser humano, tem uma dimensão fundamental de liberdade, e que essa dimensão fundamental nunca é maculada. Seja qual for a circunstância externa, sempre há uma centelha de liberdade fundamental que permite superação, criatividade, liberação e a preservação dessa humanidade básica comum a todos.

 

Integralidade

O método da Escola Caminho do Meio tem como fundamento uma abordagem integral da educação, na qual cinco dimensões constitutivas são percebidas como um todo inseparável, a saber: dimensão corporal, emocional (psíquica), mental (intelectual), sociocultural e espiritual.

Olhamos cada sujeito de forma abrangente, incluindo não apenas seu desenvolvimento mental-intelectual, mas também sua corporeidade, sua vida emocional, seu aspecto sociocultural (identidade, relações e interações, pertencimento, regras e combinações, percepção de contextos sociais etc.) e também o seu aspecto espiritual, ou seja, sua dimensão inerentemente livre e criativa, comum a todos os seres.

Compreendemos que o estabelecimento de bons hábitos relativos ao corpo e seu cuidado – tais como alimentação, saúde e consciência corporal, alternância entre movimento e repouso, bons hábitos de higiene e organização – são aprendizagens cruciais que, quando bem estabelecidas, funcionam como vantagens reais e proteção para a vida da criança durante muito tempo, facilitando-lhe o cotidiano e oferecendo-lhe condições de saúde.

Lidar com as emoções de maneira equilibrada, com o próprio corpo e o próprio intelecto é um dos grandes desafios do sujeito moderno. Por isso buscamos apoiar o desenvolvimento da inteligência emocional e incentivar o autoconhecimento, incluindo no cotidiano práticas meditativas, contemplativas e artísticas para o desenvolvimento da atenção plena.

A escola acolhe cada um no ponto em que ele está, ou seja, possibilita que cada criança manifeste suas histórias, emoções e leituras de mundo, a partir de trabalhos em grupo, com musicalidade, ao ensaiar teatro, ao cultivar plantas, observar pequenos animais, desenhar ou produzir um vídeo etc. É necessário que a emoção esteja presente na escola, que haja um mergulho nos ambientes e que os alunos se sintam no mundo.

A partir do acolhimento de si e abertura para o outro, surge o enfoque no estabelecimento de relações positivas, tendo como metodologia o “princípio da mandala”, um método no qual as crianças aprendem não através do discurso, mas pelo exemplo vivo dos educadores e comunidade, instigando os educadores em seu processo de autoformação permanente, encarado como parte indispensável da abordagem da escola.

Diversidade

Valorizamos a pluralidade cultural, o que significa que cada criança deve ser acolhida por suas características singulares e valorizada de modo a sentir-se pertencente ao grupo, desenvolvendo uma imagem positiva de si. Destacamos a importância de as crianças serem imbuídas de sentimentos e desejos como raiva, culpa, amor, carinho, frustração, encantamento etc., através dos quais aprendem a lidar com a relação interpessoal.

Trabalhamos o conhecimento segundo a perspectiva da complementaridade, segundo a qual diversos olhares e saberes podem ser valorizados de forma complementar, pondo em diálogo a abordagem científica com outras abordagens como os conhecimento indígenas e de outros povos e culturas. Valorizamos as culturas da infância e repertórios de diversas regiões do país (HORTÉLIO, 2004). Pretendemos assim desenvolver um olhar abrangente sobre si mesmo, o outro e o mundo, e apoiar identidades diversas numa perspectiva afirmativa, considerando e valorizando a diversidade que constitui o povo brasileiro.

Conhecimento

Até meados do século XX, a maioria das ciências obedecia ao princípio da redução, que limitava o conhecimento do todo ao conhecimento de suas partes (MORIN, 2000), fragmentando os processos de aprendizagem. Edgard Morin propõe, frente a isso, um processo de aprendizagem ancorado na complexidade, transdisciplinaridade e contextualização de saberes, pois, segundo ele, “as mentes formadas pelas disciplinas perdem suas aptidões naturais para contextualizar os saberes. O enfraquecimento da percepção global conduz ao enfraquecimento da responsabilidade (cada qual tende a ser responsável apenas por sua tarefa especializada), assim como ao enfraquecimento da solidariedade (cada qual não mais sente os vínculos com seus concidadãos)”. (MORIN, 2000)

Na Escola Caminho do Meio, consideramos, que “a educação deve favorecer a aptidão natural da mente em formular e resolver problemas essenciais e, de forma correlata, estimular o uso total da inteligência geral. Este uso total pede o livre exercício da curiosidade, a faculdade mais expandida e mais viva durante a infância e a adolescência, que com frequência a instrução extingue e que, ao contrário, se trata de estimular ou, caso esteja adormecida, de despertar” (MORIN, 2000).

O aspecto do conhecimento está também associado às quatro relações que buscamos aprofundar: relação consigo, com o outro, com a natureza e com as inteligências sociais. Sendo assim, buscamos promover o autoconhecimento, que possibilita também um olhar mais sensível para o outro; aprofundar um conhecimento significativo sobre a natureza e sociedade, associando um aspecto vivencial e ético ao conhecimento, buscando assim torná-lo vivo e útil para a criação de cidadãos ativos e capazes de uma ação positiva em suas realidades.

Sustentabilidade

No presente contexto social e histórico, consideramos indispensável uma educação voltada à sustentabilidade, a partir da compreensão da interdependência entre todos os seres, elementos da natureza e processos sociais. A ciência contemporânea tem evidenciado uma percepção antiga: de que toda a vida humana no planeta é uma teia interconectada, num equilíbrio sutil, ao mesmo tempo prático e poético. Com o advento da era planetária e a globalização econômica, essas conexões amplas ficam ainda mais evidentes.

A Escola Caminho do Meio busca proporcionar o desenvolvimento dessa percepção ampla e complexa sobre os fenômenos, em consonância com o ritmo de desenvolvimento dos educandos. Entretanto, vemos como ponto central dessa aprendizagem a experiência significativa – não basta uma abordagem meramente intelectual. A inserção na natureza, a experiência do belo no mundo e o tempo da experimentação direta constituem-se como componentes importantes para o despontar de uma ética ambiental que surge como uma descoberta vivencial, livre e autônoma do próprio sujeito (CORNELL, 2005). Cabe à escola criar as condições que facilitem esse processo do aluno sobre si mesmo.

Aproveitamos a ampla área verde na qual a Escola se localiza para proporcionar essas condições às crianças. Buscamos ser uma Escola que pulsa o cotidiano no ritmo do pulsar da vida e dos ciclos naturais nos quais está inserida. A educação em contato direto com a natureza procura respeitar seus ciclos e ritmos, alinhar o tempo humano com o tempo natural, harmonizando o cotidiano com o ritmo solar diário, conhecendo e vivenciando as estações do ano, os ciclos lunares e a associação sócio-histórica dos ciclos culturais com os ciclos naturais, visível nas festas anuais do calendário cultural brasileiro.

A observação de cada um dos cinco elementos naturais – terra, água, fogo, ar e espaço –, ao ser feita de forma viva dentro e fora do nosso corpo, traz a experiência direta de sermos inseparáveis da natureza, oferecendo uma ecologia humana significativa e cultivando um pensamento científico que seja, ao mesmo tempo, ético e afetivo.

Buscamos articular atentamente, de maneira transversal e interdisciplinar, as diversas matérias curriculares por dentro de um cotidiano rico e alegre em atividades artísticas, investigativo-científicas, experimentais, culturais e de expressão, de maneira que as crianças entrem em contato com o conhecimento através de estratégias diversas, desenvolvendo globalmente suas competências e habilidades de forma significativa.

Criatividade

Paulo Freire (2000) considera como dimensão mais essencial do humano sua capacidade de – em diálogo e em relação – criar, inventar o mundo, fazer cultura. “Pelos seus atos de criação, recriação e decisão, vai humanizando a realidade, acrescenta a ela algo de que ele mesmo é fazedor, temporaliza os espaços, faz cultura” (FREIRE, 2000).

Na cultura contemporânea, passamos massivamente de criadores a consumidores. O processo educacional do século XX, separado da vida prática, priorizou excessivamente a especialização (MORIN, 2000), restringindo as capacidades criativas dos sujeitos. Refletindo sobre uma educação pertinente para o século XXI, Morin adverte que “a hiperespecialização impede tanto a percepção do global quanto do essencial; impede até mesmo tratar corretamente os problemas particulares, que só podem ser propostos e pensados em seu contexto.” (MORIN, 2000)

Para a experiência de mundo de crianças e jovens nos dias atuais, faz-se necessário ajudá-los a reconhecer o mundo como um ambiente onde os seres humanos, a partir de sua própria liberdade, criam, constroem, habitam de maneira positiva. Isso nos possibilita olhar a humanidade não apenas como uma comunidade que se adapta a mecanismos sociais alheios à sua participação, mas como seres que são capazes de criar – e efetivamente criam – coletivamente os mundos e as experiências sociais e comunitárias que vão habitar.

A possibilidade de a Escola estar inserida em uma comunidade onde se veem casas sendo construídas, hortas sendo cuidadas, jardins e canteiros sendo criados, ajuda o educando a perceber a criatividade humana operando de forma incessante nos mais variados aspectos da cultura, no que concerne ao seu cotidiano direto e significativo. Assim, aquilo que é necessário para a sustentação e enriquecimento da vida não é algo externo e pronto a ser adquirido apenas, é algo que participa da nossa capacidade inerente de criar incessantemente as condições segundo as quais estamos no mundo.

Buscamos, como parte do método da Escola, tornar visíveis no cotidiano das crianças as redes de interdependência e os processos criativos que sustentam a vida. Aqui, a criatividade tem esse aspecto atrelado à vida mesma, e não é vista como um processo abstrato. A criatividade é a expressão da liberdade natural da mente de todos os seres (SAMTEN, 2006).

 

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