Rosely Sayão* e a ideologia do consumo nas escolas


Nos últimos dias, duas mães me contaram fatos acontecidos nas escolas que os filhos frequentam e que as deixaram bem aborrecidas. São dois exemplos que podem nos ajudar a pensar a respeito do papel da escola no mundo contemporâneo.

A primeira mãe contou que seu filho está num dos últimos anos do ensino fundamental e que a escola tem, anualmente, um evento que envolve as ciências da natureza.

Essa é – ou pode ser- uma atividade muito boa para os alunos, que precisam usar os conceitos que aprendem na teoria de um modo prático e apresentar o trabalho aos visitantes do evento – em geral pais e parentes -, o que colabora para o desenvolvimento da linguagem oral ligada ao conhecimento.

Essa mãe, de um modo geral, apreciou bastante o acontecimento e ficou orgulhosa da participação do filho. Acontece que, dias depois, a escola enviou aos pais um questionário com o título “Pesquisa de Satisfação”, com perguntas referentes ao evento que iam do uso do espaço à performance dos alunos.

Essa mãe não gostou nem um pouco desse questionário e, ao trocar ideias com outros pais sobre o assunto, percebeu que eles se dividem em dois grupos: os que apoiam essa atitude da escola e a consideram um ato de parceria entre família e escola e os que, como ela, não acham a atitude pertinente.

Já a outra mãe contou que a escola que o filho frequenta ofereceu “palestras” para as classes a respeito da nutrição e do valor de alguns alimentos. Acontece que quem ofereceu as tais “palestras” foi uma empresa que produz um desses alimentos, que foi distribuído graciosamente aos alunos após a explanação. Foi o que bastou para deixar essa mãe indignada e a fez procurar outra escola para o filho.

Qual é o elemento comum em situações tão diversas? O fato de pais e alunos serem tratados como consumidores pelas escolas. Sim: no mundo atual, o papel do consumidor tem merecido atenção especial de nossa sociedade, não é verdade? Direitos cada vez mais respeitados, publicidade cada vez mais cara, bens de consumo mais sofisticados. Vivemos na era do consumo.

E a escola? Qual o seu papel social nesse contexto? Repercutir essa ideologia? Claro que não. Cabe à escola, na formação cidadã de seus alunos, usar o conhecimento para que eles, em meio a tantas ofertas e pressão para o consumo desenfreado, possam fazer escolhas conscientes, bem informadas e críticas.

E é bom saber que as escolas, quer queiram ou não, formam cidadãos, principalmente no “currículo oculto”, ou seja, aquilo que é ensinado pelas atitudes tomadas, como essas de nossos exemplos.

Os mais novos não vão à escola para satisfazer os pais, deixá-los orgulhosos ou para aprender a consumir. O mundo já se encarrega desse último item, muito bem por sinal.

Eles vão à escola para, por meio do conhecimento, entender melhor o mundo, desenvolver senso crítico e ser capazes de pensar de modo diferente de seus pais. É justamente isso que possibilita que o mundo mude, não é verdade? Ou queremos que eles vivam como seus pais?

Se, no entanto, a escola não pensar minuciosamente naquilo que ensina de todas as formas, ficará submetida a várias ideologias, principalmente a do consumo. É isso que queremos para os mais novos?

* Rosely Sayão é psicóloga e educadora. Como palestrante, tem contato com pais, mães e professores de diferentes partes do país, e costuma relatar em seus textos as dúvidas que surgem no processo educacional, num mundo que está em acelerada mutação.
Foto: Tony Powell/Wikimedia

Anúncios

3 comentários sobre “Rosely Sayão* e a ideologia do consumo nas escolas

  1. Perfeito!! Que bom que alguns responsáveis pensem assim… Um ótimo exemplo que essa mãe nos trouxe. Devemos sempre refletir e analisar sobre que escola queremos para nossos filhos. Adorei!
    Rosely , como sempre , perfeita!
    Parabéns
    Leticia Poletti ( psicóloga)

    Curtir

  2. Sonho com o tempo em que pais ocupem-se em formar grupos tipo cooperativas de ensino para substituir os atuais colégios “particulares”. E que ali se elaborem técnicas e praticas condizentes com a formação decente do cidadão de amanhã. Elas seriam bem adequadas a cada grupo sócio-cultural posto que escolhidas pelos pais formadores do grupo.
    A Escola Waldorf tem um sistema parecido, mas a cooperativa me parece bem democrático, principalmente se nascida de um grupo já com aspirações tao elevadas como das pessoas que frequentam a filosofia budista.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s