Nova família, um desafio para a educação de hoje

A estrutura da família passa por transformações aceleradas. No Brasil, o Censo realizado em 2010 registrou, pela primeira vez, que mais da metade dos lares já não é formado pela estrutura tradicional de pai, mãe e filhos. Muitas crianças têm a vida dividida em dois lares, dois modelos diferentes de relacionamento e educação.

Como os educadores podem lidar com a nova família e seus desafios? Durante o Encontro de Educação “Renovando Olhares e Práticas”, Therezita Pagani, diretora do jardim de infância Tearte, e o Lama Padma Samten discutiram esta questão numa conversa informal com professores. Veja a seguir alguns trechos e opiniões surgidos durante a conversa.

Therezita

Vivencio a relação com os novos modelos de família praticamente todos os anos. Já aconteceu ver um casal adotar uma criança e, logo depois, vem um filho biológico, então vamos já conversando com a criança adotada que ela poderá ganhar um irmão ou uma irmã.

Às vezes, a babá está grávida e ela é quem ajuda a criança e a família fica meio desnorteada: Como é que eu vou fazer agora? Já vimos numa família uma mulher que usava DIU (dispositivo intra-uterino) e veio um “filho do DIU”! Sim, tudo isso pode acontecer. Para a mãe que resolve assumir sozinha a maternidade e paternidade, digo que é importante que essa criança conheça o pai. No caso de cinco crianças, eu consegui que os pais assumissem e fossem conhece-las. Hoje elas dizem: “Eu moro sozinha com a minha mãe, mas eu tenho pai”. Ou no caso das mães que têm companheiras, dizem “Eu moro com minha mãe e a amiga dela”.

Percebi também que as crianças que ainda vivem com o pai e a mãe juntos às vezes expressam muito medo que eles se separem e elas passem a ter duas casas. Elas dizem: “Eu quero ter só uma casa”. Mas também há crianças que gostam da situação e falam: “Queria ter duas casas porque assim eu ganharia mais presentes”. Porque é nessa hora (de separação) que os pais compram mais presente para os filhos, talvez tentando “comprar” as crianças, ou solucionar uma certa culpa. A namorada do pai ou o namorado da mãe fazem a mesma coisa, para ganhar a simpatia e aprovação dos pequenos.

Lama Padma Samten

Penso que a família é mais um software do que um hardware. Na abordagem budista, isso estaria ligado à vacuidade e luminosidade, por isso é possível existir tantas variações. Na visão de pensadores antigos, a família tradicional era uma instituição econômica. Durante um longo tempo, a gente imaginou que seria só isso, mas na realidade a família é o olhar que a gente tem uns para os outros.

Numa família, o que as pessoas querem é um olhar. As crianças anseiam que alguém venha e olhe verdadeiramente para elas e quando ganham isso elas ganham peso e se desenvolvem. Às vezes, a criança fica esperando que alguma mãe apareça. Tenho uma amiga que é branca, mas um dia encontrou uma criança negra que olhou para ela e disse: “Mamãe”! Então ela não conseguiu não assumir aquilo. Foi um caso em que a criança adotou a mãe, embora os corpos físicos sejam totalmente diferentes. Então não é o corpo, é o jeito pelo qual isso se dá. Logo, a família pode ser infinitamente grande. Imaginem quantos filhos tem a Therezita?

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