Em debate, uma visão transdisciplinar para a educação

Uma abordagem transdisciplinar, que aborda o sujeito de forma profunda, em todas as suas dimensões, foi a contribuição do educador Adriano Hertzog Vieira, professor no curso de Pedagogia da Universidade Católica de Brasília, no quarto dia do Encontro de Educação – Renovando Olhares e Práticas.

Adriano, que há cerca de cinco anos perdeu a visão devido a um glaucoma, explicou as origens do pensamento moderno, que põe muita ênfase no objeto, diminuindo a importância do sujeito e seu mundo interno. Ele enfatizou a necessidade de ultrapassar as fronteiras do conhecimento para acessar toda a inteireza do ser.

Abaixo, alguns trechos da fala de Adriano Hertzog.

“Tenho a sensação de que a espiritualidade é como se fosse um grande aquífero, uma água profunda da qual todos nós precisamos e as tradições religiosas são como poços que nós cavamos para chegar a esta água. Em 2002, quando me aproximei do CEBB, a comunidade sonhava criar uma escola infantil. Fizemos várias reuniões e partilhamos deste sonho em prol de uma emergência humana, que é a educação.

Depois de um certo tempo, decidi me desligar da congregação religiosa católica à qual eu estava conectado. O lama Padma Samten me convidou para morar no centro budista. Eu agradeci, mas expliquei que não tinha intenção de me converter. O lama sorriu e disse: ‘Mas nem eu quero que tu sejas budista. Quero que tu, como cristão, possas vir morar aqui e trabalhar aqui com a gente’. Com isso, o lama empurrava a barreira do poço da religião para que a gente pudesse encontrar juntos a água. A ‘trans-religião’ é uma matriz para a gente encontrar a transdisciplinaridade.

“Somos a terra que anda, fala e sente”

É preciso entender que só é possível achar água quando transgredimos, quando ultrapassamos a barreira do formal, do que é instrumento. Aqui no CEBB nós fazemos isso. Nós relativizamos o instrumento para chegar na profundidade da água. Claro que nós também cavamos o poço, criando uma escola, por exemplo. Mas o que realmente queremos é chegar à espiritualidade.

Essa matriz da espiritualidade também se transferiu para a ciência e a educação. Religiosidade talvez seja o que existe de mais profundo e ancestral. O ser humano nasce religioso. Nas cavernas, havia rituais para caçadas, na agricultura também. Até hoje a semeadura é feita na lua cheia, por mulheres, com rituais. Mas o pensamento moderno afastou a gente deste sentimento.

Precisamos chegar ao conhecimento de quem somos, o conhecimento mais profundo possível, nas dimensões físicas, psíquicas e espirituais, que não estão separadas. Nós somos terra que anda, fala e sente. Somos ser inteiro e é nessa inteireza que nós nos reconhecemos enquanto ser individual e ser coletivo. A modernidade nos ensinou a ver que o conhecimento está no objeto e não no sujeito. Somos seres inteiros na relação com os outros seres. É desta perspectiva que a escola está precisando, ou seja, transgredir as fronteiras dos poços e ir para a água”.

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