Therezita compartilha sua visão de uma educação plena

O terceiro dia do Encontro de Educação – Renovando Olhares e Práticas teve seu ponto alto com o depoimento da educadora Thereza Pagani, idealizadora e fundadora do Tearte, que o professor José Pacheco já tinha qualificado como “o melhor jardim de infância do mundo”. A fala de Therezita, seu apelido desde menina, estava sendo aguardada com expectativa, tanto pelos participantes do evento quanto por alguns dos palestrantes.

Aos 81 anos, a educadora capixaba foi aplaudida de pé ao compartilhar um pouco de sua trajetória e a convicção de que a criança precisa brincar com os pés na terra, em ambientes abertos, para desenvolver plenamente seu potencial.

Veja abaixo alguns momentos da palestra em que Therezita resgata sua história familiar e os princípios que orientam a Tearte.

“Minha motivação e impulso surgiram ao sentir que as crianças da metrópole paulista não sabiam brincar, mesmo que algumas delas dispusessem de espaços belíssimos em suas casas, jardins, piscinas etc. A criança paulista tinha armários e quartos repletos de brinquedos, mas não sabiam brincar com os pés na terra. Se elas pudessem brincar um pouco, aprenderiam todas as suas lições, sem precisar dos professores particulares que as famílias as vezes contratavam. Eu queria fazer uma escola onde se aprendesse brincando. Consegui fazer isso, sempre procurando ler e estudar muito, mas antes sentindo qual era a necessidade do outro. Isso aprendi na minha família no Espírito Santo, onde muita gente frequentava a minha casa, até as pessoas que estivessem visitando a cidade tinham como ponto de referência a minha família.

Nosso espaço é bem orgânico e o prédio é um octógono que pode receber até 80 crianças, sem salas separadas. Neste octógono, elas fazem todas as atividades, de tudo que vocês imaginarem como atitude social, ao mesmo tempo sofisticada e simples. O octógono se transforma em dias, noite, chuva ou sol. Em volta tem muita terra, nada acimentado. Estou começando a mostrar as pessoas que esse saber tratar do ser humano, da árvore, da planta, nos leva a saber conviver. Por isso usamos esse espaço, pisando e sentindo a terra, colhendo os frutos e cuidando dos aninais do minhocário e da horta e brincando muito, pois brincando a gente aprende.

Limites, afetividade e as relações familiares

Os limites com que trabalhamos são poucos e precisos. O primeiro dele é se gostar, pois quando ser humano aprende a se gostar e se conhecer ele vai gostar do outro. O segundo é saber que todos são responsáveis por todos. Se há um bebe engatinhando e alguém tropeça nele, qualquer pessoa pode ajudar a recuperar a criança do choro. Na nossa escola, muitas vezes crianças estão brincando e seus brinquedos ficam soltos no chão. Se alguém passa e pula por cima, eu faço a pessoa voltar e pergunto: ´O que é isso que está no seu caminho´? A pessoa vai perceber que aqueles objetos são essenciais na vida das crianças pequenas.

O terceiro limite é ter respeito com o outro. Quando alguém está começando a fazer um trabalho e alguém não está interessado, essa pessoa não pode ficar badernando. Ela que saia e vá fazer outra coisa, este é o limite do respeito ao outro. O maior problema que realmente eu encontro é com os adultos. Eles não têm limite nem respeito aos próprios filhos, não atendem horário de chegada, nem de saída, aceitam que crianças chutem babás, batam no rosto deles. É preciso conter a criança, aconchegá-la nos braços, olhar em seus olhos e perguntar: ´Por que você está fazendo isso´? Ou segurar firme e dizer: ´Não faça mais´. Quando esses limites forem passados para todos, há uma possível harmonia.

Infelizmente, os pais às vezes trocam a relação por balas, doces, carrinhos, bonecas, roupas. Quando eles chegam, a criança, em vez de dar um abraço, perguntam: ´Onde está meu doce e meu carrinho´? A relação fica desconectada como relação amorosa e se torna monetária, para tentar cumprir um contrato que nunca será coberto, que é a amorosidade, a afetividade. Precisam entender que não é necessário dar doces, balas, brinquedos e sim um abraço bem dado, ou dizer: `Fiquei com saudade`.

Meu maior conselho para o professor é que tenha a criança viva dentro dele. Se não tiver, vá fazer outra profissão, mas mantenha essa criança viva até a hora de morrer”.

Outras experiências em educação

Os meios hábeis para a educação também foram discutidos em mesa redonda com a presença de Gabriela Finatti, da Escola Infantil Espaço Roda Viva, em São Paulo, Valesca Leal, da Escola Caracol, em Porto Alegre, do professor de matemática Gilberto Flach, da Escola La Salle Esmeralda, também em Porto Alegre, e de Fabiano Freitas, que fez uma apresentação de produtos da marca dinamarquesa Lego. Os participantes puderam também conhecer a experiência do Centro de Desenvolvimento Infantil Jardim Castelo, o CEDIN, que surgiu em 2012 como a realização do sonho da comunidade do Jardim Castelo, em Viamão, que passou por um longo processo em busca de seu primeiro espaço de educação infantil. O CEDIN foi apresentado pela diretora Elizângela Medianeira e pela coordenadora Alessandra Meirelles.

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3 comentários sobre “Therezita compartilha sua visão de uma educação plena

  1. Que emoção, saber que o trabalho da Therezita está tão bem divulgado, saudades dela e do seu espaço, ainda nas Perdizes,devo a ela o que sou hoje, era mãe de aluno, é uma mulher sábia, é a pessoa mais integra que conheci, é magnífica.

    Viva a querida Therezita! e parabéns aos divulgadores.

    Maria Cristina

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  2. A Therezita fez e faz sua jornada com os pés no chão e com a criança no coração.

    Admiração e respeito!

    Grata por contribuir com a qualidade de vida de muitas pessoas.

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