Diferentes caminhos para uma educação amorosa e lúcida

Como promover experiências práticas de uma educação amorosa, voltada para a felicidade do ser, dentro ou fora das escolas? A pergunta trouxe provocações e motivou trocas importantes no segundo dia do Encontro de Educação – Renovando Olhares e Práticas. Pela manhã, a educadora Ana Thomaz compartilhou, em sua palestra, a história da desescolarização dentro de sua própria família, quando os filhos, em momentos diferentes, mostraram insatisfação com o ambiente escolar.

Na mesa-redonda, o psicanalista André Camargo expôs os princípios da convivência na Jabuticaba, espaço de educação não-escolar que ele criou em São Paulo, depois de ter se tornado pai de duas crianças. Wanderleia Rosa, coordenadora do Comitê de Educação do Campo do Território Kalunga, formado por ex-escravos que se agruparam num quilombo perto de Brasília, falou sobre a proposta de educação humanizadora da população rural. Com a experiência de quase 30 anos da Escola Amigos do Verde, em Porto Alegre, Silvia Carneiro explicou como os projetos podem substituir o ensino tradicional e como o diálogo “olho no olho” e as decisões em grupo superam a estrutura de poder da escola antiga.

À tarde, oficinas de técnica de Alexander, com Ana Thomaz, e de criação de jogos, com a educadora Gabriela Finatti, detalharam as propostas de mexer com o corpo e brincar pra valer.

Veja abaixo alguns trechos dos diálogos de hoje.

Ana Thomaz, educadora e professora da Técnica de Alexander

“Aprendemos a educar de forma muito impotente. Todo impotente precisa de poder. Um poder a que estamos acostumados é a ameaça: ‘eu te castigo se você não fizer o que estou querendo’. Outra maneira sutil é premiar: ‘eu te dou um presente se você me obedecer’. Outra mais sutil ainda é através de explicações: ‘vou te explicar direitinho porque você deve fazer o que estou dizendo’. Me ser potente a ser impotente, tenas a criança tem potência, por isso é tão difícil para o adulto lidar com ela. Ele pode tentar treinar aqueltando que ele entenda o código do castigo ou da explicação, assim tudo ficaria mais fácil. Mas seria melhor é se o adulto também se relacionasse com ela com potência, na harmonia da alegria ou na harmonia do embate. Eu parei de me relacionar de uma maneira que as coisas não passassem por mim. Quando uma criança tem um chilique, por exemplo, primeiro eu me apresento a mim mesma e vejo o que faço comigo mesma. Ter um filho fora da escola não é difícil. Difícil é estar com você mesma o tempo todo. Este é o verdadeiro desafio que a criança nos coloca”.

André Camargo, psicanalista e fundador da Jabuticaba

“Na Jabuticaba (Escola Livre) não há professores e alunos, são seres humanos na posição de aprender e se tornar seres humanos melhores, uma comunidade de aprendizagem e de prática, um grupo de pessoas heterogêneas convivendo e com funções que são intercambiáveis. Nosso princípio é manter a escola aberta. Temos pais e avós que às vezes chegam no meio das brincadeiras e são bem-vindos. Usamos sucata e materiais que não sufocam a criatividade da criança e que podem dar origem a objetos surpreendentes: um sofá feito de caixas de leite, por exemplo. Organizamos feiras de trocas para que mães e pais possam trocar entre eles os objetos das crianças, principalmente roupas, porque elas crescem muito rápido. Fizemos muitas rodas de sonhos para que pessoas se olhassem nos olhos e identificassem sonhos compartilhados sobre o tipo de educação que querem oferecer aos próprios filhos e à comunidade onde vivem”.

Wanderleia Rosa, Comitê de Educação do Campo do Território Kalunga

“Nossa experiência de educação é humanizadora e vem do cotidiano familiar. Minha família sempre viveu no campo e não teve oportunidade de estudar. Meu pai tem 67 anos, lê e escreve, mas minha mãe é analfabeta. Eles sempre proporcionaram aos sete filhos os valores de ajudar, respeitar e amar o próximo como a nós mesmos. Esta é a experiência de educação que adquirimos no ambiente familiar e às vezes sinto que essa educação precisa ser vigiada e pautada como algo importante para a vivência humana. Em nosso programa, formamos grupos organizativos em que todos são convidados a conviver e respeitar as diferenças. Temos ações que valorizam as pessoas que têm conhecimento das ervas medicinais. Eles são chamados de raizeiros e fazem a transmissão do conhecimento num grupo da própria comunidade. Eles nos explicam que por muito tempo não precisaram ir à farmácia e morreram com cento e tantos anos, curando-se com essas ervas”.

Silvia Carneiro, fundadora da Escola Amigos do Verde

“Devemos entender a educação como uma expansão de consciência, para que a pessoa se perceba nos níveis físico, mental, espiritual e energético e também perceba as relações entre as pessoas e com o planeta. Em nossa escola, trabalhamos com projetos e as crianças escolhem, por consenso e não por maioria, aquilo que vão aprofundar. Em seguida, fazem mapa mental e vão estudar aquele assunto por um período de 3 semanas. No final, sempre compartilhamos o que foi estudado. Nossas reuniões de pais e equipes são todas no chão, em roda, com as pessoas se olhando nos olhos. Temos um espaço com muitas arvores frutiferas, laguinho, horta, é um organismo vivo, algo que estamos sempre transformando”.

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