Criança e consumo – como mudar o paradigma atual?

Por Rafael Pezzi*

Em geral, se diz que o crescimento é bom, que a economia precisa crescer para gerar mais emprego e produtos para o bem-estar humano. Mas precisaríamos, antes de tudo, perguntar: Do que o ser humano precisa? Do que uma criança precisa para crescer saudável? Pela abordagem que existe hoje, quanto mais cedo uma criança entrar no mercado, melhor é para a economia. Um consumidor que comece precocemente a gerar produto interno bruto seria interessante, pois já haveria um agente econômico ali, influenciando os pais na decisão de uma compra. Isso entra em conflito com a educação. O papel do educador é ajudar a fortalecer uma cultura, com valores positivos, que vão influenciar aquilo que a criança vai ser quando se tornar um adulto, um cidadão. Quando tentamos falar qualquer coisa na sala de aula, ou em atividades de educação, percebemos que a criança é bombardeada por propagandas que não têm nenhum conteúdo de sentimentos ou valores humanos. Ter o tênis mais caro ou o celular mais avançado é o que vai nos trazer a felicidade? Aquilo que a mídia nos mostra, com um monte de cores, desenhos, música, tudo isso que relaciona produtos com felicidade, é verdadeiro?

São encantos que se lança na direção da criança e ela vai querer ver o personagem de seu desenho favorito na embalagem da comida, por exemplo. Mas o que tem dentro dessa comida? Ela veio de uma fonte socialmente interessante? Que tipo de mão de obra está sendo usada? Que tipo de matéria-prima está sendo usada para fazer aquele alimento? Que tipos de produtos químicos são colocados dentro deste alimento? Para onde vai a embalagem desse alimento? Não se faz nenhum tipo de questionamento. A criança vai ver um bonequinho ali, o Shrek ou qualquer outro personagem, e vai dizer: “É esse que eu quero”. Mas se ela for ao supermercado, talvez não saiba dizer os nomes das frutas e legumes. Pode pensar que o leite vem da caixinha. Recentemente ouvi o relato de uma mãe dizendo que a filha foi a uma festa num sítio, em São Paulo, e viu uma laranjeira carregada de laranjas. A criança disse: “Olha, mãe, aqui a laranja dá dependurada”! Ela não tinha noção dos processos que levam até a obtenção do alimento. Para muitos pequenos, só interessam os corantes, o cheiro, que também é artificial, e a embalagem. Existem muitas substâncias que acrescentam aroma e sabor e que nos impedem de sentir realmente o gosto da comida. Sentimos o gosto dos produtos químicos que foram colocados ali para simular um sabor. E tudo isso é excelente para a economia. Quanto mais isso ocorrer, melhores serão os índices.

A educação rumo a um paradigma de abundância

Melhor mesmo, na verdade, seria estimular que cada família possa produzir frutas e verduras em hortas domésticas. Mas isso seria péssimo para a economia como nós a entendemos hoje. Não gera mercado, não gera dinheiro e nem PIB. Se a pessoa pode simplesmente abrir a porta de casa e colher metade do que ela precisa, ou talvez usar o próprio telhado iluminado pelo sol para produzir alimento, tudo isso são coisas extremamente interessantes do ponto de vista social e da sustentabilidade, porque vai diminuir impacto. Vai reduzir a quantidade de resíduos, porque o que sobra da nossa alimentação pode gerar composto orgânico, que por sua vez vai gerar mais comida. Para os indicadores que nós usamos, nada disso é bom.

Em contrapartida, deveríamos levar mais em consideração o paradigma da abundância. Procuramos tirar o véu da escassez e ver a abundância no que já está disponível. Existem, por exemplo, os recursos educacionais abertos, como livros, vídeos, imagens, sites, programas, que são livres para serem estudados, distribuídos, multiplicados. Isso aumenta a autonomia do professor. Ele pode estudar um certo material e escolher o que pode ser passado adiante. Ao receber o material, o aluno tem a mesma autonomia que o professor teve. Todos podem se apropriar daquilo, fazer cópias, distribuir, tornando-se disseminadores deste conhecimento. O software livre funciona no paradigma da abundância e por isso ele é tão importante numa educação autêntica.

A troca para um paradigma da abundância aumenta o convívio. A abundância aproxima as pessoas. Quando nos relacionamos melhor nas famílias, entre vizinhos e dentro das comunidades, é mais fácil passar o conhecimento tradicional. Se você está com alguma dor, talvez eu saiba de um chá para resolver o problema. E assim, quando temos autonomia com relação ao conhecimento, podemos aplica-lo, sem, por exemplo, ter que ir a uma loja comprar um certo produto. Talvez eu possa resolver aquilo em casa mesmo, de forma artesanal. Famílias de um mesmo bairro poderiam, por exemplo, compartilhar um jardim de plantas medicinais. Vai fazer parte do convívio das pessoas circular por ali. As pessoas trabalhariam juntas, as crianças poderiam subir nas árvores e colher as frutas. No começo talvez achassem estranho retirá-las direto do pé, sem ter que ir ao supermercado! Ficaríamos mais próximos da terra, que é de onde a gente vem. As dimensões afetiva e espiritual também seriam contempladas, pois teríamos um fluxo de informação mais liberado entre as pessoas.

Na escolas, uma horta seria fundamental, ou, no inverno, talvez até uma estufa. Isso melhoraria o conforto térmico de todo mundo que está passando por ali. Poderíamos recolher água da chuva, para irrigar o solo conforme a necessidade. A horta precisa de manutenção, o que poderia gerar atividades com as crianças. Isso não é algo que precise ser feito durante um dia inteiro, mas é uma atenção necessária e quanto mais pessoas participassem, mais agradável seria. Todos aaprenderiam técnicas simples de plantio e poda, já que cada planta tem um manejo – sol ou sombra, mais ou menos água. Vamos planejar com uma certa atenção e ouvir as pessoas que já conhecem aquelas plantas. Isso seria bom para todo mundo e em breve veríamos o alimento brotando, com a abundância da terra.

*Doutor em Física pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), educador e pesquisador de tecnologias sustentáveis.

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2 comentários sobre “Criança e consumo – como mudar o paradigma atual?

  1. Parabéns, doutor, mas é uma mudança cultural que deve ser implementada por cada pessoa. E, há dois mil anos, Jesus disse que, “se não nos transformarmos, NUNCA entraremos no Reino do Céu”.

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