Brincar livre e manusear meditante – experiência com a pedagogia Waldorf

José Benetti é professor da Escola Caminho do Meio. Em agosto, ele participou de uma vivência no Jardim-Escola Michaelis, de orientação Waldorf, do Rio de Janeiro. Segue o relato de sua experiência.

“A Escola Caminho do Meio busca estudar, desenvolver e praticar um método que ainda é pouco conhecido. Falar de Cinco Sabedorias (acolher, sustentar, estruturar, dizer um ‘não’ amoroso e transcender) pode parecer algo extremamente místico e “fora da realidade”. Ainda pode parecer que, embora entendidas e aceitas, essas sabedorias são reservadas para aqueles que praticam tão intensamente a meditação, a recitação de mantras e os tantos métodos rituais do budismo, que não sobraria tempo para se dedicar à escola, como educador, e de forma concreta fazer diferença na vida das crianças.

No Jardim-Escola Michaelis, o único de pedagogia Waldorf do Rio de Janeiro, fundado em 1993 e atualmente localizado no bairro Botafogo, não se fala de Cinco Sabedorias e não há meditação formal em sala de aula. Porém, a sensação que tive, ao vivenciar uma semana de atividades com eles, foi a de que os professores exercem uma atenção plena ao que se está fazendo, momento a momento, associada a uma ação direta, precisa e lúcida, nos momentos pontuais em que o professor é instado a agir.

É importante compreender o princípio pedagógico apontado por Rudolf Steiner para entender que na escola se busca constantemente um equilíbrio entre o Querer, o Sentir e o Pensar, embora cada um seja enfatizado naturalmente em cada período de sete anos – chamado setênios, por ele. Por exemplo, nos primeiros sete anos, o estímulo aos conceitos, considerados mortos, nas palavras de Paula Cunha, a professora da turma que acompanhei e uma das minhas principais fontes de conhecimento da pedagogia Waldorf, seria um problema, pois aí a criança deixa de usar o Pensar – já presente desde seu nascimento, embora não evidente – de forma saudável e passa a reproduzir fórmulas prontas. “Através do pensar temos clareza de nossas experiências mais profundas, a confiança no pensar é condição essencial da saúde da alma.”, diz a jardineira.

Hora de brincar: um universo de possibilidades

Uma boa maneira de estimular esse equilíbrio, segundo a orientação Waldorf, é dar a necessária vazão a cada ênfase em cada período de desenvolvimento. Por exemplo, na educação infantil há uma constante alternância entre momentos de expansão, quando a criança está indiferenciada do mundo e simplesmente brinca, de forma livre e espontânea, e momentos de contração, quando ela se diferencia, vê que é outra, é submetida a regras. Mais especificamente, no momento da expansão, o professor permanece como referência à criança para a contração que ela experimentará depois. Isso porque ele segue realizando tarefas.

Paula vem até mim com agulha, linha, tecido e tesoura. ‘Você sabe costurar’? Não, pensei eu. Mas entendi: não importava. Era preciso que o observador não estivesse ali meramente observando. O mesmo valia para a tarefa de descascar inhame que me foi solicitada. O adulto que permanecesse na sala precisava executar uma atividade de forma constante, tranquila e habilidosa. Fazer isso não só produz benefício ao adulto, o que eu percebi na experiência direta, como também permeia a criança e a beneficia.

Durante os momentos de brincar livre, as crianças tinham a sua disposição cabanas armadas com estantes de madeira e cobertas por panos, colchões, lençois, tecidos, mesinhas, cadeirinhas, objetos de madeira, bolsas, almofadinhas, cascas de árvores, sementes, colherinhas de pau, e uma série de materiais assim. Em outras palavras, um universo de possibilidades lúdicas, que as incitava a se engajar, a se esconder, a criar grupos de brincadeiras, a dramatizar, a efetivamente brincar, alegres e sem atropelos. Elas brincavam livres, mas com uma condução não verbalizada, através dos objetos.

A importância da autoeducação

De minha parte, nutri-me enormemente durante essa semana de convívio com essa turma de dez seres atentos e brilhantes, com idades entre 2 e 6 anos. Nutri-me da sabedoria e prática das jardineiras Paula e Camila. E fiquei grato por saber que existem no mundo tantas formas de se viver a educação, que prescindem de fórmulas prontas, embora possam se embasar em – ou surgir de – sabedorias acessíveis a todos.

No caso do budismo, o “método” de ensino remonta há 2600 anos. Porém, traduzir esse método para uma pedagogia e aplicá-la em uma instituição é algo completamente novo – talvez até mesmo no mundo. Seguimos no esforço por gerar essa linguagem. Porém, para isso precisamos, como sempre nos lembrar do que nosso orientador, o Lama Padma Samten, sempre fala: precisamos praticar! É necessário, assim como é para a escola Waldorf, desenvolver uma autoeducação. É necessário que tenhamos as Cinco Sabedorias vivas em nossas vidas, no dia a dia de nossas casas, com nossas famílias, com nossos companheiros de Sanga (comunidade budista), para que isso seja natural em sala de aula.

Confio que os métodos são variados, mas que acolher, sustentar, estruturar, dizer um não amoroso e transcender podem se chamar Cinco Sabedorias, mas isso é só uma forma didática de entendermos processos que já ocorrem no universo, já ocorrem conosco, naturalmente. E que vários outros métodos vêm para dar forma às sabedorias que nós , como seres que nascemos com a semente da compaixão, já temos acesso, quer saibamos ou não, quer meditemos ou não”.

Professor José com seus alunos da Escola Infantil Caminho do Meio 

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2 comentários sobre “Brincar livre e manusear meditante – experiência com a pedagogia Waldorf

  1. Alegria! Ao ler o Relato do professor José Benetti que faz a relação entre Pedagogia Waldorf as Cinco Sabedorias que são a base do planejamento da Escola Caminho do Meio. Alegria pela preciosidade de educar e ser educado numa escola com cultura de paz!

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  2. Prof. José, fiquei muito instigada com teus relatos. Me identifico muito com o trabalho desenvolvido na Escola Caminho do Meio e agora, venho me aproximando da Pedagogia Waldorf, refletindo acerca de seus caminhos propostos. Além desse estágio na escola do Rio, você tem experiência com o ensino da Waldorf?

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