Ser sustentável também pode ser divertido

Para oferecer aos leitores a riqueza das diferentes visões sobre educação, fiz uma mesma pergunta a vários educadores: qual a essência de uma boa educação infantil? Procurarei reproduzir aqui suas opiniões, junto com os depoimentos sobre suas vivências com crianças.

Neste post, quem responde é a arte-educadora Ana Lucia Leite, especialista em educação infantil pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) e em Design e Sustentabilidade pela Educação Gaia. Mas quando se apresenta, ela coloca em segundo plano as qualificações acadêmicas e faz questão de dizer, em primeiro lugar, que é mãe de dois rapazes, Gabriel e Pedro.

“A essência de uma boa Educação Infantil é uma aliança com a espécie humana. Uma aliança com o cuidado matríztico, o cuidado de que falam Humberto Maturana e Leonardo Boff, cuidado que não é de pai ou de mãe, é cuidar do ser recém chegado, que não é futuro, é presente. A aliança deste cuidar é com a liberdade de ser, na intenção de fixar o outro o menos possível em padrões e necessidades externas.

O cuidado e a sustentabilidade na Educação Infantil devem andar de mãos dadas. O que é a sustentabilidade senão o cuidado consigo mesmo, com os outros, com o que nos cerca? É viver isso com as crianças o tempo todo, olhando observando, botando a mão, provando, sentindo. A vida humana não é sustentável sem cuidado. Só sobrevivemos em função do cuidado de outros seres humanos conosco. Este é o cuidado matríztico, incondicional e que liberta. A ideia é construirmos uma convivência com as crianças pautada no cuidar de si verdadeiramente: respeitar-se, alimentar-se, conhecer-se, ouvir-se, etc…; no cuidar do outro: dos nossos pares humanos, na perspectiva de acolher o outro através das cinco sabedorias do Buda, ou seja, cuidar do outro interagindo em liberdade desde o amigo da escola, o pai e mãe, até o homem que roubou o dinheiro da velhinha no ônibus; e assim também cuidar dos outros seres e do planeta: ao invés de esmagar as minhocas e as formigas, acompanhar seu fluxo, conhecer sua importância e também os outros seres dos mais repugnantes aos que ocupam o topo da cadeia alimentar.

Aprender com pé na terra e vento no rosto

Tudo isso é a mais pura sustentabilidade. Segundo a teoria de Gaia, nosso planeta é um organismo vivo, todo organismo vivo precisa e vive da interação e do cuidado. E isso não pode ser feito na Educação Infantil entre quatro paredes! É preciso viver o cuidado que gera sustentabilidade no espaço aberto, de pé no chão, vento no rosto e uns respinguinhos de chuva quando for verão.

Na escola em que trabalho, vejo que isso não é suficiente se não trabalharmos igualmente com as famílias, com os que cuidam e que também precisam ser cuidados. É uma cadeia do cuidado. Neste momento de mundo, todos estão precisando no mínimo de serem ouvidos. Daí o ouvir as famílias vai gerar o sentimento de pertencimento àquele núcleo, que no caso é a escola. Acho que a escola tem que ir às casas das pessoas, se as pessoas não podem ir à escola. Conheci professores que transformaram suas práticas porque foram bater na porta das casas pra se apresentar e à proposta da escola; mas tem que ouvir primeiro, tem que comer junto, tem que acolher o que ouve.

O renascer da tribo por meio do cuidado

O papel das relações é restabelecer o sentido de grupo, de tribo, perdido com a modernidade, com a especialização dos saberes, com o trabalho automatizado, com a sociedade de consumo que visa o lucro. Tudo isso gerou um afastamento das necessidades humanas, das necessidades de seres que vivem em grupos sem os quais não sobrevivem, como os lobos. Segundo Humberto Maturana, nós sobrevivemos graças ao sentido de grupo, de matilha que remanesceu na relação entre mães e filhos. O cuidado matríztico, que era de todo o grupo em relação ao recém- chegado, a criança, como acontece nas tradições indígenas, ficou restrito, na nossa sociedade, à relação entre mães e filhos, é nosso vínculo com nossa ancestralidade, com o tempo em que a convivência entre seres humanos, outros seres e a Terra era de cuidado. Maturana acredita nesta tese e eu também. Se o competir fosse a regra entre nós, não haveria muitos humanos para contarem a história. A importância das relações é restabelecer o sentido da interdependência, da boa interdependência que é a cooperação e da noção de que tudo é impermanente.

Para o educador de hoje, que sou eu, é você, somos todos que interagimos uns com os outros em todas as instâncias de convívio e não só na escola, meu conselho é o seguinte: seja acolhedor com você mesmo, com os outros e com o meio, veja o outro do ponto de vista do outro e não tente impor o seu. Partindo de onde o outro e você se encontram, tente proporcionar ao outro o que ele realmente precisa e a você também, olhe suas próprias dificuldades com carinho e também as do outro e procure dissolvê-las, mas reconhecê-las já é um ótimo caminho; e liberte a si mesmo e ao outro daquilo que não é vida, daquilo que nos foi imposto como permanente. Nada é permanente. Tudo pode ser criado. E cada espaço, cada grupo, cada escola tem um caminho próprio que precisa ser inventado. Não existe uma pedagogia, existem várias, existe a maneira, a estratégia que cada um vai usar para beneficiar os outros, permitir que ele conquiste lucidez e liberdade. Este caminho é você que vai ter o prazer de construir, porque se não for divertido, também não será sustentável”.

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