Educação do Campo: a aventura de criar uma escola popular – parte 1

Por Rafael Litvin Villas Bôas*
Parte 1

Antes se compreendia que o ensino tradicional contemplava todas as expectativas do campo. Entretanto, com o fortalecimento dos movimentos sociais do campo que lutavam por reforma agrária, ficou claro que era necessário lutar não apenas pela terra, mas por escolas, que tivessem um tipo de educação diferente daquela voltada para o meio urbano. A proposta da Educação do Campo parte da compreensão de que o professor do campo deve ter o direito a todo o conhecimento produzido pela humanidade, somado aos conhecimentos locais da sua comunidade, não só o conhecimento acadêmico, mas também o conhecimento do ponto de vista da saúde, da cultura, da tradição, das ervas medicinais, dos valores da comunidade, da sua população em todos os sentidos.

Conhecedor dessa proposta, implementada pelos movimentos sociais nas escolas de suas comunidades, e reconhecendo como legítima a demanda, o Ministério da Educação (MEC) propôs o projeto de turmas piloto do curso de licenciatura em educação do campo para cinco universidades federais, para que elas também criassem esse curso, e a Universidade de Brasília (UNB) aceitou participar do projeto piloto. Agora já estamos iniciando a sexta turma, e formando a segunda.

Mas como é o curso? É um curso que forma educadores do campo, para gestão de processos escolares e gestão de processos comunitários, e no meio do curso os estudantes escolhem entre duas áreas de habilitação, Linguagens ou Ciências da Natureza e Matemática. Entendemos que a escola não pode ser pensada separada da comunidade e estamos visando o fortalecimento dos vínculos entre a comunidade e a escola. Além dessas duas áreas de habilitação temos, ainda no curso, em disciplinas e tronco comum, as áreas de ciência sociais e ciências agrárias. Este é o nosso núcleo básico. A preocupação é oferecer uma formação, por exemplo, para um professor de biologia, em outras áreas, aprofundar seu conhecimento em filosofia, economia política, psicologia, sobre a realidade brasileira, geografia, geopolítica. No nosso curso os estudantes passam por todas essas disciplinas, para que a sua visão de mundo se torne mais ampla.

Pedagogia da alternância, proposta viável para o campo

E, para viabilizar a vinda dos trabalhadores do campo para a universidade, adotamos o modelo chamado pedagogia da alternância. Os alunos passam dois meses em atividades, um mês no campus de Planaltina, em Brasília, e a outra parte do tempo eles passam executando tarefas aqui, que são organizativas, elas não solicitadas por professores, são organizadas em conjunto, trabalhos com a história, com o território, com o povo, com as diversas comunidades, tocamos em uma série de questões que entram em confronto com o poder público, que de uma maneira geral mantém uma posição centralizadora, patrimonialista. O curso tem a proposta de fortalecer as comunidades. Fazemos assembleias com os estudantes e com os professores e elaboramos eixos estratégicos que norteiam as ações nos territórios. O primeiro deles é “Educação Popular”, ou seja, uma educação feita em comunhão com as pessoas, em parceria e não imposta de cima para baixo.

Há um outro eixo chamado “Poder Popular”, um empoderamento das pessoas da comunidade para que possam decidir seu próprio destino,para que sejam capazes de planejar a sua ação e dialogar com o poder público em pé de igualdade, sem adotarem posições servis, para que não sejam subjugadas pelo poder publico. O ponto é estabelecer com clareza quais as reais necessidades da comunidade, delimitar o que é obrigação do poder publico e exigir o cumprimento dessas metas no âmbito da saúde, do transporte, da alimentação, enfim. Trabalhamos muito a consciência da igualdade de gêneros, de etnias, vinculados a percepção de que todos são trabalhadores, inclusive os professores. Os professores, por exemplo, dialogam entre si em diversos níveis, os professores universitários mantém um contato constante com os professores do ensino médio, eles vão desenvolvendo um sentido de classe e se mobilizam para diversas ações conjuntas. Por fim, há o eixo da soberania alimentar, que visa levar a comunidade a não se tornar vulnerável do ponto de vista da produção de alimentos, procuramos métodos viáveis para estabelecer esse tipo de autonomia.

* Professor adjunto do curso de Licenciatura em Educação do Campo da Universidade de Brasília. Leciona nas áreas de Linguagens e Ciências Sociais.

Texto baseado na apresentação do curso de educação para o Campo, em Cavalcanti – GO, com a presença do Lama Padma Samten.

Educação do Campo – parte 2

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