A busca por uma educação emancipadora

Por Lama Padma Samten*

Os professores têm uma importância admirável. Porque eles estão lidando com as novas gerações. E vão formar as pessoas que vão aceitar ou não o que é colocado como pronto para elas. Hoje, nós estamos encontrando muitas crianças que não estão se adaptando à escola. Talvez a gente não esteja entendendo bem o que isso significa. Porque nós também não sentamos em roda e pensamos propriamente como deveria ser a escola. As crianças estão mudando. E as escolas estão gerando adultos que talvez possam não se ajustar à forma como a sociedade está se mantendo.

Ivan Illich, um pensador da década de 60, escreveu um trabalho muito importante chamado “Desescolarizando a Sociedade”, onde mostra o papel político da escola tradicional como sendo o papel de domesticação das pessoas. E, assim, vejo o projeto da Educação Gaia como muito importante, pois não se trata de domesticar, mas sim de emancipar os alunos. É maravilhoso que a gente consiga gerar isso, que possamos dar a nossa contribuição, que através da nossa inteligência local, possamos passar a pensar globalmente de um modo mais lúcido.

O ponto seguinte é: precisamos encontrar eixos referenciais para essa mudança educacional. Eixos que a gente não precise abandonar no futuro. Esse processo de assembléia torna necessário o estabelecimento de um eixo referencial através do qual possamos conversar com as pessoas em qualquer lugar. Vou trazer uma contribuição, mas vocês não precisam utilizar isso. Se vocês encontrarem um eixo referencial melhor, eu mesmo vou adotá-lo. Esse eixo referencial foi utilizado por Sua Santidade o Dalai Lama.

O que a escola produz?

Não se trata de um referencial religioso. É um referencial de bom senso, uma percepção de como nós sentimos a vida, o mundo. De uma forma consciente ou não, nós buscamos a felicidade, buscamos ultrapassar o sofrimento. Então, de um modo geral, não apenas os seres humanos, mas os animais, as plantas, todos os seres têm esse referencial.
Esse referencial é muito importante. O Dalai Lama costuma perguntar para os cientistas: “Qual é a base ética de vocês?” E eles olham com uma cara estranha. Os cientistas se movem, não precisam propriamente de uma base ética. Porque eles imaginam que o conhecimento, a ciência em si mesma, seja alguma coisa naturalmente pura e, assim, tudo aquilo que for criado dentro do que chamamos “ciência” esteja bem. Mas nós poderíamos fazer uma pergunta mais específica: “o senhor trabalha para a felicidade da população?” Acho que responderiam: “Não tenho bem certeza, mas decerto sim”. Ou também poderíamos perguntar: “Você trabalharia para gerar sofrimento para as pessoas?” Certamente a resposta seria: “Ah não, isso não”.

E também poderíamos perguntar: “E a escola está produzindo o quê”? Nós estamos produzindo a felicidade das pessoas ou estamos produzindo o quê”? Com essa pergunta, nos damos conta de que a escola também se encontra atrelada ao esforço econômico. Treinamos pessoas que ao final do processo se afunilam, dentro de uma inteligência que visa a ocupação de postos de trabalho, como essa aspiração dessa conta de todos os nossos anseios como seres humanos. Mas a escola, em algum momento, pensou no ideal de felicidade e de ultrapassar o sofrimento? Em algum momento se pensou sobre isso? E não se pensou. Nem ao menos olhamos para as crianças, para apurar se a felicidade delas foi o resultado da nossa ação.

Os professores são alimentados pela alegria que eles veem nos rostos dos alunos. Essencialmente, essa visão de que nós buscamos a felicidade e buscamos nos afastar do sofrimento, nós, os outros, as crianças, a sociedade como um todo, e que nós temos um destino, um destino positivo, e que nós podemos assumir isso na nossa mão, gerar o conhecimento que precisamos. Temos os mais diversos desafios locais. Mas em todos esses locais podemos produzir novos conhecimentos. Somos pesquisadores, inovadores, nós podemos produzir coisas inéditas. E, com certeza, operar com essa forma de mente é muito mais interessante. Gaia não é um processo de ensino, é um processo de geração de conhecimento. Todos geram conhecimento, todos são participantes. E aprendemos uns com os outros, o tempo todo.

E, ainda, como um novo referencial, seguindo a inteligência reflexiva que estamos olhando, temos as tradições contemplativas, a sabedoria advinda da prática do silêncio. Após contemplar, silenciamos. Considero o silêncio como uma experiência muito importante no processo vivo do conhecimento. Se os alunos conseguem ficar em silêncio, ficam menos responsivos. Eles aprendem a ver o estímulo ao redor e não responder de imediato, de um modo compulsivo. Esse silêncio não é um amortecimento, não é sonolento. É mais parecido com um silêncio do goleiro na hora do pênalti. Ele é aberto, receptivo e intenso, mas o aluno não se move, treinamos assim. Essa é a base mais profunda da inteligência. Essa capacidade de gerar o conhecimento e de parar diante das coisas, é o que de fato produz o novo.

* Estas são algumas reflexões contidas numa conversa do Lama Padma Samten com cerca de 50 professores da rede municipal de Viamão, em abril deste ano..

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11 comentários sobre “A busca por uma educação emancipadora

  1. O sincronismo entre escola e família ou professores e pais, deverá ser constante só assim, os resultados serão satisfatórios. dentro deste contexto o reconhecimento da interdependência consolidará este trabalho.
    Apenas reflexão.
    Grato pelo maravilhoso trabalho que desenvolve junto a comunidade.
    Abraço./

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  2. Com certeza Jorge!

    Com o diálogo aberto, lúcido e direto entre pais e professores, é mais fácil se criar uma educação voltada para a promoção da felicidade e geração de uma cultura de paz.

    Obrigado por trazer sua reflexão. Estamos todos juntos nessa Mandala.

    Abraço

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  3. Olá,muito boa a proposta desse modelo de educação. Sou adepto desse eixo referencial aplicado.
    Como professor de uma escola publica no Rio de Janeiro , tendo como público , alunos em condições de vulnerabilidade social, penso que o desafio de se trabalhar esses principios são maiores. Gostaria muito de trocar informações com a finalidade de entender como isso pode funcionar com um grupo de alunos cujo a familia é ausente do processo escolar. Entendemos que muitas propostas educacionais nao são capazes de atender ao nosso público e se tornam propostas exclusivas a determinada classe por desconsiderar a complexidade de áreas em conflito e de extrema violencia. Vou aguardar retorno. Inclusive , tenho interesse em conhecer a Mandala Escola se for possível!

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  4. Acredito que sem uma profunda visão das verdades budistas as crianças serão como pérolas aos porcos.
    O grade problema do mundo atual é o descontrole emocional e a negação da verdade do ser.
    As pessoas só se sentem bem se estão praticando compórtamentos viciados, seja em realmente tomar drogas, em termos de sexo( então nem se fala…) na vida social e economica.
    O lago de suas vidas só passa preenchendo de ondas mortiferas a sociedade humana e a maioria destas ondas sempre é devastadora, porque cria mais e mais ondas de pura destruição.
    A futilidade de vida virou regra e a falta de compaixão, caridade e entrega total ao egocentrismo perverso são dogmas fortissímos atualmente.
    Espero que a escolinha possa abrir os véus da ignorância que teimam em estragar o caminho destes novos seres humanos.

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  5. Sempre fiquei desanimada com o sistema de educação se nossas escolas , as quais preparam replicadores e não pensadores, sempre pensei em fazer diferente mas minha antiga profissão me alienava em uma rotina alucinante, pensei em mudar de vida e fazer a diferença mesmo que fosse para poucos, pensei em fazer pedagogia mas uma avaliação geral do nosso sistema de ensino me desanimou, mas não desisti da mudança entao parti para uma nova carreira e fui estudar psicologia, e por fim me deparei com a psicologia escolar que tbm é uma grande luta para quebra de paradigmas, hoje sou estudante indo para o quarto ano de psicologia e ao ver um projeto como este sinto-me acolhida e não tão só quanto aos meus pensamentos. Muito lindo este trabalho, um conceito inteligente e uma iniciativa que irá ajudar muitos. Gratidão por me permitir a acreditar mais nas mudanças.

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