Budismo e Academia em diálogo

As contribuições da sabedoria milenar do budismo ao campo de educação é tema de interesse de pesquisadores ligados ao Núcleo de Pesquisas em Educação e Espiritualidade, situado no Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal de Pernambuco.

Esse grupo é composto por quatro professores da casa e seus orientandos nos níveis de pesquisa de graduação, mestrado e doutorado, além de pesquisadores associados que também integram a equipe. Dentro do núcleo, uma linha de pesquisa específica sobre Budismo e Educação foi criada sob a coordenação do Prof. Dr. Alexandre Freitas.

Segundo o próprio Alexandre, a contribuição do trabalho do Lama Padma Samten para as pesquisas nesse campo é de grandes dimensões, tendo em vista a conexão do Lama com o tema e o significativo volume de textos e palestras dele pertinentes ao assunto. Soma-se a isso a habilidade do Lama em traduzir os ensinamentos dessa tradição para o contexto contemporâneo, facilitando o diálogo com a academia. Em 2010, um ciclo de diálogos entre o Lama e o Professor foi realizado ao longo de todo o ano, totalizando quatro encontros, no contexto da agenda de pesquisas do Núcleo de Educação e Espiritualidade da UFPE. Abaixo é possível ler o que Alexandre Freitas disse sobre o assunto na ocasião.

Considerações sobre o diálogo entre Budismo e Educação

Alexandre Freitas
Excerto do primeiro Diálogo Budismo como Prática Educacional Transformadora
Universidade Federal de Pernambuco. Recife, 05.08.2010

Antes de abordar a agenda de pesquisas dentro deste diálogo entre educação e budismo, gostaria de partir de alguns pressupostos que são aquilo que tem movimentado o nosso debate. O primeiro pressuposto desse diálogo a partir do educador, ou do campo da educação, é a constatação de certo desnível entre esses dois campos de experiência: o campo que estamos chamando de educação, e o do budismo. Como educador, constatamos uma espécie de desnível de visão entre esses dois campos de experiência. O que esse desnível quer dizer? Quer dizer basicamente a percepção de que nós, educadores, temos obstruído uma perspectiva do processo do ato educativo como formação humana. É como se nós educadores pensássemos ser possível uma prática educativa desvinculada de uma reflexão mais profunda, mais significativa sobre o que significa a formação humana. É como se nós pudéssemos acreditar na possibilidade de uma educação que não está voltada para um processo de formação humana. Eu tenho a impressão que, do ponto de vista do budismo, essa possibilidade não tem como se colocar, mas ela tem se colocado para nós no campo educativo.

Disso decorre um segundo pressuposto: há uma espécie de preponderância, na atualidade das experiências educativas, de um tipo de estrutura repetitiva, uma estrutura circular. Essa estrutura é responsável por certa ordem do mundo, certa maneira de compreender e perceber o próprio mundo, uma ordem que não pode ser tocada sem que se comprometa a própria visão que nós temos do que seria uma vida socialmente organizada. Esse desnível da educação, que é esse esquecimento da educação como formação humana, afeta a maneira como nós percebemos a própria realidade do mundo. Então esse seria o segundo pressuposto.

Por fim, isso aponta para a preponderância, no campo educativo atual, de um déficit pedagógico, de um déficit de reflexão sobre a natureza e o sentido mesmo das práticas educativas que a gente desenvolve. Esse déficit está associado a uma série de reducionismos oriundos da cultura moderna, do processo de modernização que se acelera, sobretudo, a partir da segunda metade do século XIX. Eu não vou me deter nesses reducionismos, mas eles centralmente apontam para uma linearidade entre educação e escolarização, e o que alguns autores do campo chamam de cognitivismo: uma centralidade dos processos educativos em uma dimensão importante, mas não única, que é a dimensão cognitiva do ser humano.

Esses reducionismos do processo educativo na nossa cultura levam ao fato de que a educação assume basicamente duas tarefas na atualidade: a primeira é uma concepção de educação como correção, como se educar fosse corrigir algo que não está ou não estaria funcionando adequadamente nos sujeitos que participam do processo educativo. Uma segunda concepção seria a ideia de que educar é adaptar o sujeito a uma estrutura – social, política, econômica – tal como  se apresenta instituída.

Esses pressupostos, portanto, indicam justamente essa dificuldade que muitas vezes encontramos, dentro do campo instituído da educação, para dialogar com tradições como o budismo, que articulam uma visão de realidade mais complexa do que a forma como nós educadores temos historicamente aprendido a lidar com a dimensão da realidade. Daí nasce a nossa ideia do diálogo, de pensar o budismo como prática educacional transformadora.

A sugestão é nossa, mas a tese não é minha. Budismo como Prática Educacional Transformadora é o título da tese de doutoramento defendida pelo Alexander Castro em 2005, na Universidade Federal Fluminense. Sua tese é bem clara. Ele buscou apreender o budismo através da transmissão dos ensinamentos. O que ele investigou foi como se processa a transmissão dos ensinamentos budistas para os ocidentais. Ele fez uma larga pesquisa durante quatro anos, tentando extrair desse processo de transmissão aquilo que seria, nas palavras dele, a prática pedagógica budista. Eu também não vou tecer análise a respeito dessa tese, mas eu gosto da hipótese que o Alexander levanta porque ele parte do princípio de que o budismo exemplifica uma compreensão singular da educação.

Vou ser mais direto, o Alexander diz: “o budismo é algo que veio desenhado, desde a sua origem, para ensinar e aprender”. Por que eu gosto dessa hipótese? Porque essa hipótese rompe com certa maneira simplificada de pensar o diálogo entre educação e budismo. O que seria essa abordagem simplificada? Uma abordagem que pensa a educação simplesmente como um meio para propagar ideias. Nesse caso, ideias budistas. Para o Alexander – e eu sou muito seduzido pela provocação que ele nos faz, analisando a prática pedagógica do budismo – o que ele encontrou é uma concepção outra, em que a educação não é simplesmente um meio para que o budismo possa se propagar. A hipótese que ele levanta é que o budismo é, ele próprio, desde a sua origem, algo desenhado para ensinar e aprender, nas suas palavras, “ensinar e aprender um processo de transformação da experiência existencial”. Ele fala: “o que o budismo ensina? Uma compreensão da realidade que permite uma transformação na estrutura perceptiva que nós temos de nós mesmos e da própria realidade”. Conclui assim que “por essa razão, os ensinamentos dentro da tradição budista são aprendidos como meios hábeis e não fins em si mesmos”.

Outro resultado de seu estudo é a percepção de que, no budismo, a prática é o que leva à compreensão, o que o leva à conclusão mais forte do seu trabalho: a ideia de que os ensinamentos budistas sugerem, eles próprios, uma prática. Ele traduz isso numa frase simples, mas direta: “O ensinamento não fica de pé a não ser por sua prática”. Isso é importante para nós justamente na medida em que essa leitura permite que a gente avance na forma como os educadores apreendem a própria experiência educativa.

Agenda de pesquisas em educação e espiritualidade

Gostaria agora de contar a história da agenda do diálogo. Essa história tem alguns antecedentes. O primeiro passo foi em 2004, quando foi cadastrado, no diretório de pesquisa do Centro Nacional de Pesquisas (CNPq), o grupo denominado Educação e Espiritualidade, coordenado, desde o mesmo ano, pelos professores Ferdinand Röhr e José Policarpo Jr. Desde então, orientandos da graduação, mestrandos e doutorandos vem desenvolvendo trabalhos de pesquisa dentro desse núcleo. Entretanto, o núcleo não estava ainda institucionalizado dentro do programa de pós-graduação do Centro de Educação (CE) da UFPE. Mas o grupo foi crescendo, e em 2008 realizamos um curso de extensão universitária intitulado também Educação e Espiritualidade, o qual agregou cerca de 54 participantes.

O curso tinha como objetivo possibilitar um debate público sobre a noção de espiritualidade, sobre o que o CE e o Programa de Pós Graduação em Educação estão pesquisando sobre o tema, e ainda sobre o que o campo educacional compreende deste assunto. Esse seminário culminou num livro que se chama Diálogos em Educação e Espiritualidade. Um ano depois do curso e em função dele, o programa de pós-graduação foi convencido de que a reflexão sobre a espiritualidade era não só pertinente do ponto de vista acadêmico e científico, mas era também urgente para o programa, o que viabilizou a institucionalização do núcleo dentro do programa também. Atualmente, temos cinco pesquisadores diretamente associados: três entraram em 2009 e dois estão entrando agora em 2010.

A ideia do núcleo é conduzir pesquisas, estudos e orientações sobre a educação do ser humano e sua secção mais ampla, o que inclui todas as possíveis dimensões e modos de ser; promover o esclarecimento progressivo da ideia de espiritualidade dentro do programa; e empreender pesquisas, orientações e estudos que apontem a possibilidade de um aperfeiçoamento das práticas educativas, da própria formação do educador e mesmo da compreensão que nós temos da educação, uma vez que a gente consiga aprofundar a ideia de espiritualidade para o desenvolvimento humano.

O núcleo tem hoje quatro linhas de pesquisa estabilizadas. Uma trata da Espiritualidade na Filosofia Dialógica e na Filosofia da Existência; uma segunda trata da Formação Humana e dos Processos de Individuação; há ainda uma linha específica sobre Educação e Filosofia Budista; e, por fim, Educação Transpessoal e Espiritualidade Integral.

Educação e Budismo

Destaco agora Educação e o Budismo, porque é o foco do nosso diálogo hoje. Esse eixo curricular, especificamente, se propõe a uma análise das concepções de realidade, crenças, razão, cognição, educação, identidade, liberdade e espiritualidade na filosofia budista. Analisa ainda a relação entre as ciências humanas e compreensões como emancipação e autorrealização, discutindo as contribuições das escolas de pensamento do budismo para a construção de pedagogias que favoreçam processos de mudança pessoal, social e cultural na contemporaneidade.

Dentro dessa linha temática, temos três grandes nós que articulam nossos investimentos (Educação e Cuidado de Si, Formação Humana, Self e Reflexividade e Educação e Budismo). Esses eixos estão situados no âmbito de uma reflexão sobre as bases espirituais da nossa civilização. O Frédéric Vandenberghe, pesquisador holandês radicado no Rio de Janeiro, criou uma expressão pra essa discussão, que é sociologia da alma ou do espírito. Dentro das ciências humanas, é a esse lugar que vamos nos acoplar e de onde extraímos legitimidade para os estudos que fazemos nesse universo.

Mas o que pretendemos delinear? Basicamente, a investigação de um tema que os educadores têm deixado ao largo, para não dizer que esse tem sido um tema praticamente invisível, desconhecido dos educadores. A expressão é de um filósofo indiano radicado na Inglaterra, chamado Roy Bhaskar. Ele diz que o tema que os educadores têm explorado pouco é o ponto de vista da vacuidade como uma perspectiva que daria aos educadores a possibilidade de resinificar as suas próprias visões de educação, tanto do ponto de vista teórico quanto prático, principalmente. Ou seja, para ele, os estados não duais de existência têm repercussões diretas sobre as matrizes de subjetivação da experiência e, consequentemente, sobre a formação do sujeito. Daí a importância dessa temática.

E é exatamente em função disso que o diálogo com o budismo se apresenta como algo muito interessante, na medida em que há um reconhecimento global dos pesquisadores desse âmbito de que nenhuma outra tradição deu maior valor aos estados de percepção espiritual, e nenhuma outra descreveu de forma tão metódica os vários caminhos e disciplinas pelos quais esses estados são alcançados.

Além disso – e isso para o nosso núcleo é muito importante – dentro da tradição budista, a filosofia funciona como um princípio interno da espiritualidade. Por que isso é importante? Porque nesse caso, a filosofia não teria um papel externo à espiritualidade, como uma espécie de juiz. Para nós isso é vital, porque faz com que não se articule um núcleo de estudos e pesquisas cuja finalidade seja simplesmente a formação – no sentido estrito e fraco – de doutores competentes para falar sobre, quando, na verdade, o sentido maior do diálogo é fazer com que as práticas educativas redundem numa transformação de sujeitos que estão envolvidos com essa dimensão. Isso pra nós tem um papel central.

A espiritualidade, dentro desse contexto, expressaria de um modo radical uma forma de cultivo, uma forma de prática que visa diretamente à liberdade alcançada através do conhecimento profundo da realidade, ao mesmo tempo em que se aponta para uma noção radical de subjetividade, já que essa tradição ultrapassa uma dicotomia que tem atormentado há bastante tempo a filosofia ocidental, de um modo geral, e a filosofia educacional, de maneira particular: o dualismo mente-corpo. Na Universidade Católica de Pernambuco, essa foi uma das questões que mais moveu o debate.

Talvez seja este o grande eixo por onde esse diálogo possa produzir coisas de forma muito intensa, inclusive de maneira prática e significativa, que é: a tradição budista parte da concepção de sujeito que afronta, de uma maneira explícita e direta, o modo como os educadores pensam o sujeito da educação, normalmente como um sujeito essencialista, como uma substância, uma coisa que existe independente de uma realidade também pensada de forma independente. Então é um diálogo que pode produzir muitos frutos.

De uma maneira geral, esse diálogo com o budismo – inusitado para a teoria educacional – visa justamente essas duas coisas: primeiro, encontrar referenciais alternativos para a compreensão das categorias teórico-práticas que fundamentam a própria experiência educativa, e investigar práticas concretas do cultivo da espiritualidade e seus efeitos nas dimensões tanto institucionais quanto existenciais dos sujeitos. Isso gera múltiplos cenários de problematização.

No seminário da Universidade Católica de Pernambuco, surgiram várias questões sobre a Escola Infantil Caminho do Meio, sobre a experiência que o Chagdud Gonpa está começando a desenvolver em Minas Gerais também com crianças. Então temos aí possibilidades dentro de instituições que têm uma identidade radicada de maneira bem direta na tradição budista e que estão gerando práticas de educação formal e também de educação não formal como, por exemplo, o projeto “Filhos de Buda” do Templo Zu Lai. Seria muito interessante entender que impactos e implicações as práticas geradas por essas instituições podem ter, em termos de conhecimento e de prática, para os educadores..

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